Doutora em sociologia pela USP e professora da Universidade Federal do Recôncavo Baiano, a cientista social Dyane Brito começou a estudar as relações raciais na graduação. Como bolsista, se ocupava em pesquisar boletins de ocorrência para identificar, em meio a casos registrados como brigas, assédio e ofensas mútuas, histórias de racismo dissimuladas pela burocracia. Com base no histórico de discriminação sofrida por pessoas negras de pele escura, a professora defende que esse deve ser prioritariamente o grupo beneficiário das cotas e cita o que considera afro-oportunismo. Nesta entrevista, Dyane conversa sobre discriminação, colorismo e a necessidade de que pretos e pardos marchem juntos contra a discriminação.
Quando começou a estudar os boletins de ocorrência, o que lhe chamou a atenção?
Naquela época, estava ainda em discussão a ideia de uma delegacia especializada. Na Bahia, ainda não tinha. O meu projeto se chamava: Práticas, crenças raciais e a jurisprudência antirracista no Brasil, coordenado pelo professor Antônio Sérgio Guimarães. Meu trabalho como bolsista consistia em olhar nos boletins de ocorrência da delegacia os casos de racismo, lembrando que estou falando de 1994, eram aqueles livrões. Eu lia e identificava as questões de racismo. Havia um outro caso em que aparecia no título “racismo”. Quando isso aparecia? Numa briga com você, eu te chamava de “negro sujo”, por exemplo. Então, o delegado intitulava racismo. Mas comecei a perceber que havia casos que não estava intitulado o racismo, mas quando você lia a questão racial estava colocada. Muitas vezes não vinha nessa fala negro ou negra, essa discriminação explícita, mas estava no texto. Eu precisava olhar aspectos como discriminação pura, agressão mútua, assédio moral e outras tantas titulações que apareciam. E chamava atenção a própria reação da polícia, quando a gente conversava. Sempre era pensado como um crime de terceira, quarta ou quinta ordem, tipo: tenho coisa mais importante para tratar. Falar que não existe racismo no Brasil sempre esteve presente nos discursos.
Lembra de um caso específico que tenha ligado a luz de que ali estava o racismo?
Eu não diria um caso, mas casos recorrentes em uma loja de um shopping em Salvador que era assim, mensalmente acontecia um caso naquela loja.
Americanas? [Em 2006, por exemplo, um jovem de 18 anos foi vítima de discriminação e agressão].
Sim. Era alguém que estava andando e era chamado pelos seguranças e tal. É importante dizer que a gente nem sempre tinha a cor da pessoa na queixa. Isso foi um complicador por muito tempo. Você lia a queixa e em outro caso havia a cor do denunciante, como autodeclaração ou heteroidentificação [identificação da cor por outra pessoa]. Mas muitas vezes era na leitura que você pensava: essa pessoa é preta. Isso me chamou a atenção para os tratamentos diferenciados que a gente vivenciava no shopping, na loja de departamentos. É daí que vou construir um trabalho, que virou uma dissertação de mestrado: O racismo na determinação da suspeição policial. Eram pessoas pretas que traziam no corpo as marcas, com todas as aspas, de delinquência ou marginalidade.
Esta semana foi publicada uma notícia de que a Brigada Militar (Polícia do Rio Grande do Sul) não admite que haja racismo nas abordagens, mas oficiais negros reconheceram que, sem a farda, temem ser parados pela polícia. Além da aparência, o relatório falava em territorialidade. Você trabalha de alguma forma com essa questão?
Interessante você perguntar isso. Naquela época, a gente ouvia isso da polícia. Eles diziam: “Você quer pesquisar racismo, mas não existe isso aqui. Nossa atuação é baseada na formação, na experiência”. Eu fiz uma imersão de oito meses em duas companhias da polícia militar, na Caixa d'água e na Barra, e as conversas eram assim, você não vai encontrar nada, isso não existe. A metodologia não estava dando certo, aí veio a ideia de trabalhar com imagens. Eu tinha assistido a uma palestra de um professor da Universidade da Califórnia, em Los Angeles (Ucla), e ele contou a sua experiência. Havia algo de imagem na formação dos policiais de lá. Eles deviam atirar quando fosse a imagem de um suspeito. Depois, eles voltavam para rever as imagens e, em geral, eram imagens de homens negros ou latinos. Eu não dispunha dessa tecnologia e fui pegar recortes de jornais e revistas para fazer o meu trabalho. Imagens de pessoas em diversas situações, coluna social, revistas de moda, pessoas que tinham sido presas, um mosaico de imagens. Eu sentava com o policial e mostrava as imagens. No meu caderno, eu tinha uma legenda. Em uma conversa, eu pedia a ele que retirasse as imagens de pessoas em que, numa abordagem de rua, ele consideraria suspeitas, enquanto a gente conversava. Lá para os 40 minutos de conversa, eu pegava as fotos que ele já havia tirado. Não sobrava um preto. Todos eram tirados. Muitas vezes, pessoas com marcas da negritude, o cabelo rasta, os mais retintos. E quando eu questionava o policial vinha a resposta: com esse cabelinho? E falavam de lugares suspeitos, quase sempre bairros pobres, um jovem pobre num ponto de ônibus. Eles mesmos falavam de casos em que haviam abordado e, muitas vezes, tinham passado por uma situação de muito temor. Eu lembro de uma entrevista em que o policial falou: ele chegou a fazer xixi na roupa, de tanto medo que ficou. A gente estava falando ali de casos que acabaram bem. Mas a gente sabe que muitos casos não acabam bem. Essa semana, acabamos de ver o caso de São Félix [O cabeleireiro Davi Pereira morreu depois de ser baleado pelas costas em uma ação da PM]. São muitos casos. Hoje [terça, dia 8], vi o caso de um rapaz acusado de roubar umas botas que ele havia comprado. Todos esses casos são corpos de rapazes negros.
Tem essa discussão do colorismo [termo surgido nos Estados Unidos, na década de 1980, que sustenta uma gradação no teor de discriminação que um negro enfrenta, a depender da cor da pele, de ter ou não cabelo crespo, de traços fenotípicos]. Como a senhora vê esse debate?
O primeiro ponto é dizer que, no Brasil, negros são pretos e pardos. Nessa categoria, a gente vai ter os mais pretos e os com menos melanina. Tem um grande intelectual que há algumas décadas me chamou a atenção para o tipo de racismo no Brasil, Oracy Nogueira. Ele dizia que o preconceito racial no Brasil é de marca, não é de origem. O que ele chamava atenção é que o nosso modelo de racismo está baseado na pele. Quanto mais características negras eu traga no corpo, maiores são as minhas possibilidades de discriminação cotidiana. Quanto menos, isso vai me proteger de alguma forma. O que não quer dizer que essas pessoas não passem por situações. Algumas pessoas na Bahia são consideradas não negras, mas isso não é verdade quando elas vão a outros estados, no sul. A gente falou da violência que atinge mais os jovens negros, mas temos a que atinge mais a mulher negra, o acesso a emprego em determinados lugares, a chamada boa aparência. O que é necessário? Não ficarmos nos digladiando entre nós, tipo, ‘eu sou mais preta do que você’. Precisamos nos unir nessa luta e fazer compreender que todos somos discriminados. E sobretudo entender como a sua cor lhe protegeu do racismo. E aí tem a ver com essa autodeclaração oportunista para o acesso a algum bem, de cotas, mas ao longo desta vida você foi protegido por ter menos características negras. E aí a gente está falando mesmo para os pardos.
Algumas pessoas consideram que ser pardo é estar em um limbo e, por isso, se declaram negras. Segundo o IBGE, 46,7% da população brasileira se declara parda. Por que em ambientes acadêmicos ou em uma conversa cara a cara, algumas pessoas têm dificuldade em se declarar pardas ou mestiças?
Eu acho importante pontuar aquele entendimento: a gente pega os intelectuais do século 19, de mestiçagem enquanto subumanidade. Para eles, ser negro e ser mestiço era uma desgraça total. Passadas algumas décadas, em 1930, você tem uma outra perspectiva sobre mestiçagem, que nos trouxe muitos prejuízos, devo dizer, mas que vai entender a mestiçagem como grande característica do povo brasileiro. E era. Mas traz a perspectiva de que por sermos todos mestiços aqui não há problemas raciais. O que a gente vai vivenciar é algo como não posso ser negro, mas somos todos mestiços. Pardo, efetivamente, é uma categoria usada a partir dos anos 1970 ou 80 nos processos de identificação. A autodeclaração era aberta. No Brasil, chegamos a ter mais de 100 gradações de cor, do preto retinto ao rosa-choque. Havia a necessidade de trazer isso de uma forma metodologicamente aceita, os pretos, os pardos, os brancos, os amarelos e os indígenas. A gente vai verificar esse número grande de pardos, fugindo do peso que é ser negro no Brasil. Com o passar do tempo, um processo de formação e de educação, muitos pardos se assumem como negros. Tem a discussão feita pelos movimentos negros nos anos 1970 de que pardo não é cor. E tem, por último, que é o que eu queria tocar, um percentual de afro-oportunismo. Aqueles que foram se identificar na categoria pardo porque não podiam dizer que eram pretos, mas que começaram a identificar aí uma forma de se beneficiar de políticas instaladas no Brasil no início dos anos 2000. Se uma pessoa teve um bisavô negro retinto, mas não é negra, não deveria se beneficiar das cotas porque não vivencia as mesmas coisas. O meu posicionamento é trabalhar a ideia de pretos para o acesso às políticas de ação afirmativa.
