Fábio Bittencourt
No Brasil existem 118 bancos comunitários de desenvolvimento operando moedas sociais – na Bahia, quatro; em Salvador, um – o Santa Luzia, no bairro do Uruguai, Península Itapagipana. Criado em 2017 pela associação dos moradores do local, a instituição gira por mês 2,5 mil “umojas” em crédito para famílias em dificuldade.
Agora na pandemia foi uma salvação para muitos, dizem os entrevistados para A TARDE. Umoja é o nome da moeda que circula por lá, aceita por comerciantes também do Lobato, Massaranduba, Jardim Cruzeiro, Vila Ruy Barbosa e outros.
Os empréstimos vão de 50 a 300 umojas – equivalente ao valor do real –, e o cliente tem até 30 dias para pagar, sem juros. As cédulas são de 0,50; 1; 2; 5 e 10 umojas.
Há também linha para financiamento à produção – de pequenos empreendedores, a juros simples de 3%, e de três a 12 meses para pagar até R$ 3 mil. Controlada financeiramente, a esteticista Mariana Bonfim, 36 anos, mãe de três filhos, ainda não precisou, mas diz ter certeza de, em uma eventual crise, poder contar com o “socorro” do Banco Santa Luzia.
De outubro do ano passado até o mesmo mês de 2020, os bancos comunitários movimentaram em todo o país R$ 300 milhões, tudo por meio de um aplicativo celular que concentra todos eles, o E-dinheiro. Sem o objetivo de obter lucro, a plataforma registrou saldo líquido de R$ 10 milhões.
O montante foi investido em um fundo de crédito que retorna para as comunidades, como que em um ciclo autossustentável. Os dados são da Rede Brasileira de Bancos Comunitários, que comprou o sistema E-dinheiro, informa o coordenador Joaquim Melo.
Ex-liderança religiosa, Melo ajudou a fundar, em 1998, o Banco Palmas, primeiro desse tipo no país, na periferia da capital cearense. Ele explica que em meados dos anos 1970, pescadores que viviam na beira-mar de Fortaleza foram expulsos e despejados no “Conjunto Palmeiras”, uma área alagadiça, cheia de mato.
Por meio de mutirões, a comunidade se organizou e construiu igreja, escola, enfim, a favela. Porém até hoje o comitê de moradores se reúne uma vez por mês para definir “plano de investimentos e traçar estratégias de médio e longo prazos que visem ao desenvolvimento integrado do local”, afirma.
Atualmente, o Banco Palmas possui sete mil usuários, 1.200 clientes ativos, uma carteira de crédito de R$ 3 milhões, 180 estabelecimentos cadastrados (para receber palmas, a moeda social). Toda a comunidade tem 50 mil habitantes.
“Nosso objetivo sempre foi gerar trabalho, renda, permitir a inclusão financeira das famílias, também digital, valorizar o local, nossa identidade”, fala Melo.
Assim como em Fortaleza, no bairro do Uruguai, em Salvador, a Associação dos Moradores do Conjunto Santa Luzia há mais de 20 anos promove o desenvolvimento do lugar. O banco é só a mais recente criação deles. Antes disso, o foco era em educação, programas de finanças solidárias, qualificação profissional, saúde.
O promotor de crédito do Banco Santa Luzia, Tiago Muniz, 35, estudou na escola comunitária “transformadora” Luiza Mahin, iniciativa dos moradores. “O impacto é fomentar a economia local. Gente que não tem o que comer consegue abastecer a despensa”.
Dono há 14 anos de uma padaria no Uruguai, Francisco Nonato, 55, fala que todo dia recebe umojas, em um total no mês que varia de 200 a 600. “Assim que eles comunicaram a criação da moeda eu aceitei. Importante para o comércio, ajuda a aquecer. É um dinheiro novo, que antes não entrava”.
O mesmo vale para o comerciante de frutas e temperos Adailton Pereira, 50, que exibe com orgulho as cédulas de umojas.
De acordo com o consultor financeiro Antônio Carvalho, bancos comunitários são uma estratégia da chamada economia solidária, “importante instrumento de articulação e fortalecimento de laços comunitários e valorização do local”.
“É importante para a economia local no momento que centraliza as operações (o dinheiro) na própria comunidade, impulsiona marcas. Geralmente vem acompanhado de muita mobilização e engajamento”.
Falta incentivo
Pesquisador no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Sandro Silva destaca que o atual governo federal não mais prevê o fomento de políticas de economia solidária e que essas tiveram o seu auge entre as gestões Dilma e Lula. Hoje, cabe a estados e municípios apoiar as iniciativas, diz.
“São vetores de desenvolvimento para demandas locais, que exige muito protagonismo, esforço, parceria, capital social”, fala.
“A pandemia escancarou uma parcela grande da população que não tem acesso a serviços bancários, pois faz parte do mercado informal, não possui renda, e o banco comunitário chega para fazer a inclusão das pessoas, diz a assessora técnica na Incubadora Tecnológica de Economia Solidária da Universidade Federal da Bahia, Simaia Barreto.